Câmara dos Tormentos

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 Criação de Constantinopla - Por Manuk

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Manuk



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MensagemAssunto: Criação de Constantinopla - Por Manuk   Ter Ago 18, 2009 8:29 pm

A FUNDAÇÃO DE CONSTANTINOPLA

A cidade de Bizâncio foi fundada por marinheiros de Mégera no ano de 657 antes de Cristo, num extremo da Europa, onde o Bósforo se abre para o Mar de Mármara. Esse litoral não era desconhecido pelos colonizadores gregos. Uns poucos anos antes, outros megários haviam fundado a cidade de Calcedônia, na margem asiática oposta, tornando-se proverbialmente conhecidos pela cegueira de não perceber que o melhor local estava do outro lado do mar. Mesmo assim, Calcedênia dispunha de vantagens que poucos cidades do Bósforo, em sua situação, possuíam.
A Europa é separada da Ásia sul-ocidental por dois grandes lençóis de água, o Mar Negro e o Mar Egeu; entre os dois, porém, estende-se a Trácia em direção da Ásia menor, até que dois continentes fiquem separados apenas por dois estreitos canais, o Bósforo e o Helesponto ou Dardanelos, e pelo mar interior de Mármara. Desses dois canais de fácil travessia, o Bósforo é levemente mais acessivel do continente asiático, já que evita a subida sobre o Olimpo da Bitínia, ou Ida, e muito mais acessível para quem parte da Europa, devido ao ângulo em que se projeta o Quersoneso Trácio para formar o Helesponto. Homens e mercadorias que viajem por terra de um continente para o outro passarão, quase que inevitavelmente, por uma cidade do Bósforo, enquanto nos navios navegando entre o Mar Negro, o Egeu e o Mediterrâneo terão certamente de passar junto dela. O Bósforo está situado no cruzamento de duas das maiores rotas comerciais da História.
Calcedônia não está mal colocada, mas mesmo assim seus fundadores foram curiosamente cegos, pois a costa européia dispunha de uma vantagem que faltava à original. No ponto em que as águas do Bósforo passam para a Mármara estende-se para o noroeste uma soberba baía, de uns onze quilometros de extensão, curva como uma foice ou um chifre, e conhecida na História como o Chifre de Ouro. Entre ela e o Mármara fica um promontório montanhoso, na forma aproximada de um triângulo isósceles, cuja vértice romtudo está voltado para a Ásia. Uma cidade fundada sobre tal promontório não só estaria provida de um porto natural, onde uma grande armada poderia abrigar-se em perfeita segurança, como também protegida pelo mar por quase todos os lados. A única desvantagem era o clima. Durante todo o inverno e a primavera um vento norte quase incessante sopra do Mar Negro, vindo das estepes geladas, enregelando o colono habituado aos vales abrigados da Grécia e contrastando excissivamente com os cálidos verões que se seguem. E esse vento norte, combinado com a forte corrente do Bósforo no rumo sul, freqüentemente impedia que os navios a vela contornassem a ponta e chegassem ao Chifre de Ouro.
Foi possivelmente o clima que impediu Bizâncio de se tornar, por quase mil anos, uma grande cidade. Além disso, nos grandes dias da Grécia, era mais fácil e mais seguro para os mercadores asiáticos, devido ao estado bárbaro da Trácia, passar à Europa através de Esmirna ou Éfeso. Sua importância como fortaleza, porém,, foi logo compreendida. Na guerra do Peloponeso foi louvada por sua posição de comando sobre a do Mar Negro, em cuja margem norte estavam as plantações de cereias onde Atenas se alimentava. Filipe da Macedônia e seu filho Alexandre reconheceram nela a principal porta para a Ásia. Os imperadores romanos chegaram a considerar sua força estratégica como uma ameaça. Vespasiano revogou seus privilégios; Severo, a cujas tropasa resistiu durante dois anos em defesa da causa perdida de Pescênio Níger, destruiu-as. Galieno seguiu o exemplo de Severo, e em conseqüência os piratas godos puderam velejar impunemente pelos Estreitos até o Egeu. Diocleciano foi, por isso, obrigado a levantar as muralhas mais uma vez. Sua potencialidade total como fortaleza, porém, não foi descoberta senão na segunda Guerra Licínia, de 322-3, quando Licínio transformou-a no centro de toda sua campanha contra Constantino. Licínio transformou-a no centro de toda sua campanha contra Constantino. Licínio foi arruinado pela perda de sua frota no Helesponto, e seu exército caiu finalmente em Crisópole; após sua rendição, não era necessário que a fortaleza continuasse a resistir. A estratégia de Licínio foi observada por uma grande adversário – Constantino a viu possibilidade ainda maiores em Bizâncio. Mal acabara a guerra, e o imperador já estava arquitetos e agrimensores a visitar a cidade e seus arredores, e as operações de construção tiveram início.
Nas últimas décadas, os imperadores romanos haviam sentido a necessidade de um novo centro administrativo. A própria Roma tornava-se pouco adequada aos imperadores, com suas tradições republicanas e senatoriais, e sua desconfiança das novas concepções orientais da soberania. Além do mais, estava muito longe das duas fronteiras para as quais se voltava cada vez mais a sua atenção: a armeno-síria e a do Danúbio. Maximiniano geovernara em Milão, Diocleciano mudara-se para o Oriente, fazendo de Nicomédia a principal residência. Constantino acalentara o plano sentimental de estabelecer em sua cidade natal, Naisso ou Nissa, a capital, e mais tarde dedicara-se à reconstrução de Tróia. Mas quando sua atenção se voltou para Bizâncio, as vantagens por esta oferecidas tornaram-se manifestas. Não houve mais hecitação. As fortificações foram iniciadas em novembro de 324, e cinco anos e meio depois a capital estava concluída. A 11 de maio de 330 a cidade foi solenemnte inaugurada pelo imperador, sob o nome de Nova Roma. O povo, porém, preferiu chamá-la pelo nome de seu fundador, Constantinopla.
O ano de 330 é a melhor data para tomar como ponto de partida da história bizantina. Mas a fundação de Constantinopla, embora mais importante, foi apenas uma das reformas e modificações que já haviam começado a transformar gradualmente o império pagão de Roma naquilo que chamamos de Império Bizantino. Ao termino do século III A.D., o Império Romano ressentia da necessidade de reformas. Não é este o momento de contar detalhadamente as causas do desmoronamento do velho mundo romano. De uma forma resumida podemos dizer que elas foram principalmente o caos e a tibieza administrativa e financeira, o poder excessivo nas mãos de soldados ambiciosos, e uma nova série de perigos nas fronteiras. Roma havia conquistado seu império territorial graças a um permanente senso de oportunidade. A província captudarada era pacificada o mais depressa possível, com a permissão de conservar muitos dos direitos e costumes locais. Conseqüentemente, cada província demandava um tipo diferente de administração. O estado que se encontrava o governo central aumentava tal diversidade. A Diarquia, tão anunciada por Augusto, e na qual o Senado participava da soberania com o imperador e governava totalmente certas pronvíncias, apenas contribuiu para aumentar a confusão sem se constituir num controle eficiente do poder do imperador. As finanças refletiam nessa desordem. Os impostos eram altos, mas variados e irregulares, e uma consideravel parte deles permanecia nas mãos dos cidadões que compravam ao governo o direito de recolhê-los. A riqueza tinha uma distribuição muito desigual. Os milionários eram ainda mais numerosos, ao passo que provícias inteiras mergulhavam na pobreza. O império vinha, além de tudo, sofrendo há muito de uma posição adversa nas trocas comerciais. Já na época de Plínio as importações da Índia excediam as exportações, anualmente, em cerca de 600.000 libras exterlinas, e a desvantagem, com relação à China, era de 400.000 libras. Essa deficiência não foi corrigida nunca. Durante o início do império, as emissões imperiais se foram depreciando gradualmente, e a partir do reino de Caracala a queda de valor foi rápida, até que, finalmente, só as moedas de cobre não continham ligas, ao passo que as de prata chegaram a consistir de apenas 2% desse metal.
Enfrentando uma confusão administrativa e uma constante inquietação financeira, as autoridades civis não tinham poderes. A única força realmente existente estava com os chefes do Exército. Roma não podia viver sem suas legiões. Eram longas as fronteiras a guardar, necessária a polícia nas províncias cuja rebeldia natural se inflamava pela exploração econômica. Todos os governadores das grandes províncias tinham uma legião à sua disposição e por vezes comandavam até mesmo exércitos maiores. Isso não teria sido, talvez, perigoso, se existisse um governo central forte e uma norma de sucessão fixa para o império. Poucas dinastias imperiais, porém, chegaram sequer à terceira geração. O trono era, cada vez mais, o prêmio a ser conquistado pelo chefe militar mais forte, pelos generais ambiciosos que abundavam. Durante o século III havia quase que invariavelmente alguma província nas mãos de um usurpador e, na prática, o império dificilmente poderia ser considerado como uma comunidade unida.
A desordem tornou-se muito mais séria no século III pelas novas pressões surgidas nas fronteiras do império, a fronteira asiática, que ia da Armênia à Arábia, suscitava problemas relativamente pequenos. O reino parto dos Arsácidas entrara em lento declínio. Mas no início do século III uma nova dinastia surgira na Pérsia, a dos Sassânidas, popular, nacionalista e zoroastriana, que durante quatro séculos seria inimiga agressiva dos romanos. Os Sassânidas derrotaram quatro imperadores no século III, chegando mesmo a aprisionar o Imperador Valeriano. Sua força parecia crescer de ano para ano. Ao mesmo tempo, a fronteira européia necessitava de vigilância adicional. Desde os dias de Cesar, o governador da Gália tinha o seu cargo uma tarefa árdua, a de guardar a fronteira do Reno contra as porlíferas tribos da Alemanha Ocidental, que ansiavam por libertar-se de suas florestas constrangedoras. A pressão agora, porém, era no Danúbio. Tribos da Alemanha Oriental, os godos em particular, instalavam-se nas margens fronteiras, e qualquer novo movimento ou migração nas Estepes provavelmente as incitava a atravessar o rio. O problema godo constituía claramente uma ameaça e, apesar dos esforços de imperadores como Cláudio II, não mostrava sinais de qualquer solução.
Era esse o ambiente político da vida no século III. Os padrões de civilização eram ainda altos. Embora os pobres, os escravos e os homens livres pouco tivessem melhorado em sua condição – a não ser pelo fato de que muitos deles viviam da caridade do Estado – as classes mais ricas desfrutavam um conforto material e um luxo que ultrapassavam qualquer coisa já vista na pelo mundo. O domínio romano representou sempre um eficiente programa de obras públicas: banhos e templos, portos e estradas, tudo contribuía para a amenidade da vida. As comunicações eram rápidas, fáceis e seguras. Mas todo esse conforto, toda essa segurança, estavam sujeitos a súbitas e prolongadas interrupções. Nas guerras civis freqüentes, cidadãos pacíficos podiam ver-se, inesperadamente, desgraçados, pilhados e até condenados à morte. A insegurança levou à desilusão das coisas do mundo, que seria a característica principal da cultura da época.


*Steven Runciman – A Civilização Bizantina (segunda edição). Biblioteca de cultura histórica, Zahar Edirores (1977) Tradução de Waltersir Dutra, Rio de janeiro.
Título original: BYZANTINE CIVILIZATION publicado na Inglaterra por: Edward Arnord (Publishers) Ltd.
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Manuk



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MensagemAssunto: A criação de Constantinopla - segunda parte   Ter Ago 18, 2009 8:34 pm

Culturalmente, o império estava dividido em dois. Da Ilíria para o Oeste, as pronvíncias falavam o latim com lingua universal; para o Leste, a língua era o grego. A separação era entretanto, mais aparente do que o real: embora do Ocidente viessem quase todos os homens de ação e os estadistas, os intelectuais ocidentais seguiam a orientação do mindo de língua grega. Apenas na África e na Gália teve a cultura latina um impeto próprio. Os latinos deixaram, entretanto, obras públicas e um profundo sentido do Direito que marcoui mesmo o Oriente, e sobreviveu à desordem. A civilização do Leste era ainda helênica, uma mistura de concepções clássicas gregas com semitas e iranianas. A influência da Grécia, porém, reduzira-se a uma forte tradição, ao invés de uma força vital. O individualismo essencial à cultura helênica não podia resistir ao desaparecimento da cidade-Estado e à fusão até mesmo dos reinos macedônios num império mundial de cuja direção os gregos não participavam. Mas as artes e as letras continuavam fiéis aos velhos modelos gregos ou às suas magníficas reproduções, surgidas na Roma augustianiana. Os artistas acrescentavam apenas uma grande paixão pelo volume e pelos detalhes que evidenciassem a competência de sua técnica. Templos, estátuas, poemas épicos, revestiam-se todos de magnificência e rebuscamento. Conservavam a espontaneidade apenas um ou outro poema lírico, ou um quadro, bem com a sátira, que é a expressão natural de uma época sem ilusões. O mundo do Império Romano era bem educado e estético, mas a grande civilização de que admirava e copiava perdera sua força vital. A salvação viria de outra região, do Oriente Sírio.
Já no século III a arquitetura começara a mostrar um novo esplendor, espontâneo e oriental. Mas o Oriente venceria a tradição clássica não tanto por suas concepções de majestade, mas principalmente por suas idéias mais puramente espirituais. Uma época desiludida volta-se para a religião e foge das incertezas do mundo. Mas as velhas religiões, a pagã alegria de viver dos gregos, o culto do Estado de Roma, falharam quando a vida se ensombreceu com o medo e a decadência do Estado era evidente. O Oriente tinha um consolo melhor a oferecer. Desde o primeiro contato de Roma com Leste, as misteriosas religiões de Ísis e da Grande Mãe começaram a divulgar-se pelo Ocidente, e seus adeptos aumentavam gradualmente. No ritual secreto e na penitência ordenada por essas deusas, o cansaço da vida se voltava para uma realidade mais alta. Ess culto atraía principalmente os requintados e os desiludidos da sociedade. O soldado e o homem de ação preferiam um culto de origem iraniana, o mitraísmo se havia disseminado por tod império, encerrando em sua poderosa organização a esmagadora maioria do exército. Também ele ostentava pompa e cerimônia, mas era menos quietista. Proporcionava, ao contrário, um senso de companheirismo e de disciplina que se opunha à desesperança e à solidão do mundo. Mas o mitraísmo teve de enfrentar um rival ainda maior, uma religião que se iniciava obscuramente na Palestina, e era chamada de cristianismo.
Não é de surpreender que o cristianismo fosse a fé triunfante. Sua mensagem tinha um poder de atração muito maior que qualquer outra. O oriental com sua aparente paciência, é na verdade muitoimpaciente. Incapaz de suportar a dor e o sofrimento, refugia-se imediatamente na comunhão com as coisas mais altas e foge à esfera das sensações materiais. O ocidental odeia odeia os espinhos porque eles ferem. Seu consolo está na esperança e na crença de que os espinhos desaparecerão um dia. O grego helênico estava a meio caminho entre ambos. Atrás de seu misticismo do culto da Natureza, havia nele um amor inato do simbolismo. Todos esses anseios podiam encontrar satisfação no cristianismo, que encorajava o misticismo, pregava uma escatologia de esperanção, era rico de simbolos e tinha um ritual nobre. Além do mais, encenava um atrativo particular para as classes inferiores, com sua afimação de que os olhos de Deus todos eram iguais ao imperador, e ensinando a todos o amor fraternal. Essa mensagem o recomendava aos filantropos, pois nenhuma outra religião dava à caridade um sentido tão prático. A Igreja Cristã foi admiravelmente organizada. Desde os dias de São Paulo, seus chefes haviam sido homens de tino administrativo. Teve ainda duas vantagens imensas sobre seu rival, o mitraísmo. A primeira foi a de permitir às mulheres um papel destacado. Os professores ortodoxos podiam na realidade deplorar e denunciar a completa igualdade dos sexos ensinada pelos heráticos montanistas (adeptos de Montano, do século II, que se julgava possuído pelo Espírito Santo, e por ele utilizado como instrumento para purificar os homens e guiá-los na vida cristão. N. Do T.) - as mulheres tiveram sempre um papel relevente na história do cristianismo. Como diaconisas e mais recentemente, como abadessas (Os conventos de freiras são, na verdade, anteriores aos mosteiros. No Egito houve vários deles no século III: Smith, Early Mysticism in the Near East, 34 e ss.), podiam adquirir importância. O mitraísmo, porém, era uma religião masculina. Não encontramos traços de mulheres entre os seus adeptos. A segunda grande força do cristianismo está na influênciaque, desde os primeiros anos, recebera da filosofia grega. Essa influência deu à sua teologia um conteúdo intelectual que a tornou aceitável na épocal. Nem o mitraísmo nem qualquer outra religião misteriosas poderia ter produzidos homens do calibre mental dos primeiros padres cristãos, homens como Orígenes, Irineu, Tertuliano ou Clemente de Alexandria, pensadores superados apenas por seus sucessores, os padres do século IV. Apesar do cisma no Ocidente e das heresias no Oriente, a Igreja Cristã tornava-se rapidamente a mais poderosa organização isolado do império. Nenhuma das heresias era ainda perigosa. O gnosticismo, a mais séria delas, nunca teve grande valor popular. Logo dividiu-se em seitas menores, e embora na época Mani já estivesse produzindo uma estranha mistura de gnosticismo e do dualismo zoroastriano, que teria certa voga nos séculos IV e V, o centro do mainiqueísmo achava-se na fronteira persa.
Em seu avanço gradual, o cristianismo foi sem dúvida auxiliado pela lenda de seus santos e de seus comprovados milagres, pois aquela época era de superstições. A idade da razão augustiniana teve vida curta. Os homens voltavam a falar dos feitos maravilhosos de Apolônio de Tiana e acreditavam em histŕias com que as que Apuleu narrara. A previsão do futuro e a magia tinham grande desenvolvimento. A demonologia elevou-se a ciência. Todas as superstições que fizeram da civilização bizantina objeto de ridículo para os historiadores do século XVIII vieram dessa época do velho império, embora muitas outras, ainda pagãs, tivessem sido transferidas para a Igreja Cristã. Até a filosofia seguiu a tendência popular. No ocidente, o estoicismo conseguiu produzir Marco Aurélio antes de desaparecer, mas no Oriente jáhá algum tempo apenas o neoplatonismo mantinha a vitalidade. Nas mão de Porfírio e Jâmblico, o neoplatonismo recebia influxos de taumaturgia e magia, e de um politeísmo geral. Na verdade, os ensinamentos dos apóstolos cristãos estavam provavelmente mais próximos do platonismo do que as doutrinas criadas nas escolas dos filósofos.
No ano de 284 o poder imperial passou às mãos do primeiro grande estadista que Roma produziu desde Augusto – Diocleciano, nascido na Ilíria. Tinha ele plena consciência da situação do império e dedicou seu reinado a um programa de reformas de longo alcançe. Suas principais intenções eram a de centralizar e introduzir uniformidade na administração, colocar o exército sob o controle do governo, restaurar a situação financeira pela estabilização da moeda e consolidar essa obra elevando a posição do imperador.
Em toda a história do império é manifesta a tendência para a uniformidade, exemplificada na facilidade em conceder a cidadania romana a qualquer súdito nascido homem livre, e no desaparecimento recente das últimas províncias governadas pelo Senado. Mas o caos que precedeu à subido de Diocleciano tornava necessário um sistema inteiramente novo. Diocleciano julgava o império demasiado extenso para ser governado por um único imperador. Desde os primeiros césares, fora considerada necessária a existência de um ministro do Exterior grego e outro latino. Diocleciano levou mais além essa divisão básica. Não criou dois impérios, mas determinou que ele deveria ter dois imperadores, cada qual residindo numa metade de sua área. Para assegurar a continuidade pacífica do governo, cada imperador deveria der auxiliado por um césar que seria seu herdeiro. As províncias foram novamente divididas e reorganizadas. O império foi dividido em quattro grandes prefeituras – a Gália, a Itália, a Ilíria e o Oriente - governadas por quatro prefeitos pretorianos, que eram as autoridades mais altas do Estado. As prefeituras foram subdivididas em grandes províncias, chamadas dioceses, cujo governador habitualmente tinha o título de vigário e estava subordinado ao prefeito. As províncias conhecidas como Ásia e África conservavam,porém, seus procônsules, com o privilégio de despacharem diretamente com o imperador. Para administrar o império reorganizado, foi formada uma rede de funcionários civis, e novos poderes atribuídos a burocracia.
A principal característica dessa burocracia foi sua completa separação das autoridades militares. Apenas em algumas fronteiras combinavam-se as duas funções, embora a princípio o prefeito fosse um autoridade tanto militar como civil. Uma gigantesca organização militar foi montada lado a lado com a organização civil, e esperava-se que tal separação de poderes serviria de freio às ambições de generais desleais. Ao mesmo tempo, Diocleciano fundou um exército imperial móvel que se podia transferir rapidamente a qualquer parte do império, em caso de guerra ou insurreição.


*Steven Runciman – A Civilização Bizantina (segunda edição). Biblioteca de cultura histórica, Zahar Edirores (1977) Tradução de Waltersir Dutra, Rio de janeiro.
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Manuk



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MensagemAssunto: A criação de Constantinopla - terceira parte   Ter Ago 18, 2009 8:37 pm

A preservação do império reformado seria feita por um sistema rígido de castas. Seguindo a idéia primeiramente lançada pelo Imperador Aureliano, Diocleciano decretou que o filho teria, invariavelmente, de seguir a profissão do pai, qualquer que fosse ela. As agitações sociais se haviam tornado tão freqüêntes, fortunas faziam-se e perdiam-se tão rapidamente que ele julgou necessária tal rigidez para manter a estabilidade e seer possível recolher um renda regular. Constituía também uma vantgem recrutar o exército entre as classes médias da sociedade. Os membros da nobreza senatorial, perigosos por sua riqueza e suas tradições oligárquicas, eram cuidadosamente excluídos das fileiras militares.
A tentativa de estabilizar a moeda teve menor êxito: foi impossível voltar à posição que desfrutara sob Augusto. As várias tentativas, feitas por Diocleciano, de emitir uma moeda integral levou por fim, para sua surpresa, a uma elevação dos preços. Para contrabalançar isso, o imperador promulgou o famoso decreto de 301, que fixava os preços de todas as mercadorias. O decreto não teve êxito, e coube a Cosntantino estabilizar a moeda do império numa base permanente.
A mais duradoura das reformas de Diocleciano foi a menos tangível – a intensificação da majestade imperial. O conceito da divindade do rei era endêmico no Oriente e estivera em moda na época das monarquias helênicas. Não desaparecera nunca nas províncias orientais do império: o imperador herdara uma parte da divindade. Mas Roma, com seu tradicional ódio aos reis, não aprovava isso. Augusto teve, portanto, cautela ao não dar mostras de majestade. Era apenas o primeiro cidadão do império, um ser humano que, embora importante, era acessível. Cedo considerou-se que seria bom para os povos vassalos se os imperadores mortos fossem deificados; o verdadeiro romano, porém, aprovou o discurso cínico de Vespasiano agonizante (Ut puto, deus fio – Creio que me estou transformando num deus). Apesar da adulação exigida por Domiciano ou por Heliogábalo, essa atitude persistiu no Ocidente, e a possibilidade de uma morte súbita que parecia parte da profissão imperial, não contribuíra para aumentar o prestígio do imperador. Diocleciano percebeu que a autoridade imperial seria maior, e a vida do imperador mais segura, se ele fosse feito semideus.
Os recém-estabelecidos Sassânidas da Pérsia envolviam-se num espesso halo de majestade. Diocleciano copiou-lhe muitos dos rituais. O imperador já não se movia livremente entre os súditos. Vivia retirado, numa corte protocolar, e era atendido pessoalmente por eunucos, raça antes desprezada e proibida. Os que eram recebidos em audiência deviam deviam prostrar-se e adorá-lo. Usava um diadema, calçados escarlates e mantos de púrpura. De certa forma, isso constituía uma evolução natural. A lei era quase divina aos olhos dos romanos, e o imperador era, de há muito, uma fonte de lei. Mas Roma sentiu-se ofendida pelas pompas externas e orientais do despotismo. Foi entretanto Roma, e não o imperador, que mais sofreu com isso. Diocleciano governou o Oriente em Nicomédia, reconhecido como um semideus, e Maximiniano, seu colega ocidental, preferiu residir em Milão.
Diocleciano procurou dar verossimilitude à sua divindade, proclamando-se descendente de Júpeter, rei dos deuses, preparando dessa forma seu caminho para panteão. Maximiano preferiu ser mais popular, embora menos exaltado, dizendo-se descendente de Hércules. Constantino, o césar do Ocidente, tentou combinar sua religião pessoal, o mitraísmo, com o culto do imperador, tornando-se descendente do Deus-Sol Apolo.
Mas havia uma grande parte da comunidade que não podia dar aos imperadores a adoração que exigiam. Os cristãos, com sua distinção clara entre o que era de césar e o que era de Deus, portavam-se com bons cidadãos enquanto não fossem obrigados a cultuar o Estado. Mas cultuar um ser hamano, mesmo sendo o imperador, era algo que certamente não podiam tolerar. Diocleciano viu que não podia permitir à mais forte organização religiosa do império rejeitar sua majestade. Procurou usar a coação, e encontrou uma resistência fanática: começou então a Grande Perseguição. Os cristãos continuaram não-conformistas. Foi o Imperador Constantino quem encontrou a solução para a fusão de césar com Deus.
O império reformado por Diocleciano mal resistiu à sua abdicação, em 305. Seus vários aspectos permaneceram, mas com uma exceção fundamental. Diocleciano fizera o império depender do imperador, mas o sistema de dois imperadores e uma norma d sucessão ao trono só poderia perdurar se os candidatos imperiais fossem homens de espírito elevado, isentos de ciúmes e suspeitas. O título de césar era também perigoso, muito alto, mas ainda não bastante alto. Desapareceu rapidamente. Em 311 havia havia quatro imperadores, Licínio e maximino no Oriente, Maxêncio e Constantino, filho de Constâncio, no Ocidente. A cena estava, evidentemente, preparada para a guerra civil.
Ela irrompeu inicialmente no Ocidente. Uma rápida e brilhante campanha em 312, de Colmar ao campo de Saxa Rubra, pela ponte Milvius, fez de Constantino o senhor do Ocidente. No ano seguinte, auxiliou Licínio a derrotar maximino e tornar-se, por sua vez, senhor do Oriente. Mas Constantino e Licínio eram ambos muitos ambiciosos para dividir entre si o império. Sua primeira guerra de 313 não foi decisiva, mas em 323 Licínio era esmagado em Crisópole e Constantino passava a ser o único imperador.
O Colégio Imperial de Diocleciano terminava, assim, num fracasso. Sob outros aspectos, porém, sua obra perdurou. Constantino conservou-lhe o sistema administrativo e conseguiu o que para Diocleciano foi impossível: a estabilização da moeda. O velho sistema monetário romano não podia ser recuperado, mas Constantino criou um padrão ouro, o soldo, uma peça de ouro estampada com seu sinete, ao invés de uma moeda, em relação ao qual se faziam as cunhagem. O sistema funcionou bem, O soldo imperial manteve seu valor e prestígio firmemente por oito séculos.
Constantino secundou os esforços de Diocleciano na deificação da posição do imperador. Na marcha que fez para o sul, ao encontro de Maxêncio, quando seu futuro estava em jogo, Constantino e todo o seu exército tiveram uma visão. Uma cruz brilhante surgiu do céu, à frente deles, com a inscrição “Hoc vinces”, e na mesma noite Cristo confirmou a visão num sonho do imperador. Profundamente impressionado, Constantino adotou aquele lábaro, a cruz com a ponta torcida, e com ele levou suas tropas à vitória.
O milagre foi oportuno. O visionário mostrou senso político. Constantino iniciara sua carreira política sob a égide de seu sogro, Maximiano, e fora portanto da Casa de Hércules. Após sua ruptura com Maxêncio, voltou à fé mitraica de sua família, tornando-se filho de Apolo. Mas Maxêncio, tal como Maximino no Oriente, adotou uma forte política antes cristã. Seu adversário teve, por isso, de cortejar a aliança dos cristãos, que constituíam provavelmente apenas cerca de um quinto dos habitantes do Império, mas que eram, de longe, a religião mais forte, e por isso aliados mais valiosos do que os adeptos do mitraísmo – embora o Lábaro fosse também um símbolo adequado aos mitraístas, o que não deixava de ter certa utilidade.
Qualquer que fosse sua concepção pessoal, após a batalha de Saxa rubra, parece certo – por suas moedas e seus decretos – que Constantino estava comprometido com o cristianismo. Esmagara Maxêncio como campeão cristão, lutara ao lado de Licínio como campeões contra o perseguidor Maximino, e proculgava o famoso Edito de Milão, de 313, que pela primeira vez reconhecia legalmente a comunidade cristã. Mas Licínio continuou pagão. Também ao atacá-lo, Constatino era o soldado cristão. O cristianismo e Constatino tinham dívidas entre si.
No ano de 325 Constantino surgiu como patrono da cristianismo, de uma nova maneira. A Igreja estava às volta com a disputa entre Ário, sacerdote de Alexandria, e seu bispo, sobre a natureza da divindade de Cristo. Constantino tomou a si a incumbência de convocar os bispos da Igreja para uma reunião em Nicéia, na grande assembléia conhecida na História como o Primeiro Concílio Ecumênico, na qual, sob sua presidência, os bispos decidiram que Ário esrava errado. Esse primeiro concílio de Nicéia foi importante não apenas pela formulação da doutrina cristã, mas como o primeiro exemplo de cesaro-papismo. Constantino pretendia que a Igreja Cristã fosse estatal, tendo como chefe o imperador. Em sua grantidão, os cristãos não lhe fizeram objeção.
Assim, parecia chegar ao fim o velho antagonismo entre a Igreja e o Estado. O imperador era o chefe da Comunidade Cristã. Não lhe era mais necessário atribuir-se descendência de Hércules ou Apolo: tinha uma nova santidade que redimiria todos os pecados. O sangue de seus rivais, de seu filho e até de sua mulher, manchava-se as mãos, mas para o mundo ele era o Isapostolos, o igual aos apóstolos, o Décimo-Terceiro deles. Seu prestígio espiritual foi fortalecido graças à energia exploradora de Helena, antiga concubina bitínia de Constâncio, e que enviara a Jerusalém onde, com um auxílio miraculoso de que hoje em dia não dispõem os arqueólogos, encontrou o sítio mesmo do Calvário, desenterrou a Cruz Verdadeira e as cruzes dos ladrões, bem como a lança, a esponja e a coroa de espilhos, e todas as relíquias da Paixão. A descoberta entusiasmou a cristandade e redundou na glória eterna da mãe do imperador. Os nomes de Constatino e Helena tornaram-se os mais reverenciados na história do Império Cristão.
Faltava completar ainda um trabalho mais concreto para concluir a transformação do império: a fundação de Constantinopla. O império devia ter uma nova capital no Oriente, igual a Roma em tudo, exceto na antiguidade, e superior a ela pelo fato de ser, desde o início, uma cidade cristã. O valor da nova capital era evidente. A escolha do local foi uma demostração de genialidade. Ali todos elementos que constituíam o império reformado fundir-se-ia naturalmente – a Grécia, Roma e o Oriente Cristão.
Constantinopla foi fundada no litoral de língua grega e incorporou uma velha cidade grega. Mas Constantino fez ainda mais para acentuar seu helenismo. Sua capital deveria ser o centro da arte e da cultura. Construiu nela bibliotecas cheias de manuscritos gregos e povoou as ruas, praças e museus com tesouros artísticos vindos de todo o Oriente Grego. O cidadão de Constantinopla caminhando diariamente pela cidade jamais poderia esquecer a glória de sua herança helênica.
Mas era também uma cidade romana. Por mais de dois séculos a Corte e uma grande proporção de seus habitantes falavam latim, que era ainda a língua culta do interior dos Balçãs. Em seu desejo de reunir um população vinda de todo o império, Constantino deu à ralé da cidade o provilégio de pão e circo livres, defrutado pelo populacho de Roma. As classes mais elevadas eram induzidas, segundo a lenda, a se transportarem para o Bósforo graças às dádivas de palácios que reproduziam exatamente suas casas romanas. Constantinopla deveria ser uma outra Roma. “Nova Roma que é Constantinopla” foi seu título oficial até o fim, e seus cidadãos eram também Rômaioi. A grande contribuição de Roma para o novo império foram suas teorias administrativas, suas tradições militares e o seu Direito. Mas os habitantes de Constantinopla se consideravam romanos por nacionalidade, ainda muito depois que o latim deixara de ser ouvido no Bósforo e os vestígios de sangue italiano tornaram-se raros. Mesmo no século XII era pretensão dos aristocratas ter ascendentes no séquito que acompanhou Constantino à nova cidade.
O terceiro elemento era o Oriente Cristão. Constantinopla deveria ser uma cidade cristã. Os templos da antiga Bizâncio puderam continuar por mais algum tempo, e parece até que alguns deles foram erguidos pelos pagãos que construíam a cidade. Uma vez concluído o trabalho, porém, nenhum outro foi levantado. O Oriente e seu misticismo já tinham invadido o mundo romano e lhe ensinado a considerar o monarca como divino. Constantino prestou homenagem a Tique, a Fortuna da cidade e fez construir uma grande coluna de Apolo, na qual o rosto da estátua fora alterado para representar o seu. E ali ficou ele, com todos os atributos do Deus-Sol, para ser adorado pelos pagãos, mitraístas e cristãos, ao mesmo tempo. O cristianismo era uma religião oriental. A filosofia grega dera-lhe uma forma aceitável à Europa, mas fundamentalmente ele permanecia semita em suas concepções. O cidadão de Constantinopla tinha plena consciência da herança grego-romana, mas a sua forma de ver a vida era, nos aspectos básicos, diferentes. Experimentava menor satisfação no mundo, detendo-se de preferência nas coisas eternas. Esse estado de espírito tornava-se o mais receptivo às idéias vindas do Oriente do que às oriundas do Ocidente. E a história do Império bizantino é a história da infiltração das idéias vindas orientais até colorirem as tradições da Grécia e Roma e de reação periódica a essa infiltração. A despeito dela, as tradições grego-romanas perduraram até o final. Mesmo no século XV os homens de Constantinopla discutiam a natureza de sua civilização; eram Romaioi: seriam também helenos? O último grande cidadão do império deu-lhes a resposta: “Embora seja heleno pela fala, nunca diria que sou heleno, pois não acredito nas coisas em que os helenos acreditam. Gostaria de tomar meu nome na minha crença, e se alguém me perguntasse o que sou, responderia: cristão. (…) Embora meu pai habitasse a Tessália, não me considero tessaliano, mas sim bizantino, pois sou de Bizâncio.” (Genádio, Disputatio contra Judaeum,ed. Jahn, 2.)
Podemos seguir Jorge Genádio e chamar a civilização segundo os elementos bizantinos que a fizeram, considerando como sua inauguração a cerimônia do dia 11 de maio de 330, quando o Imperador Constantino dedicou a grande cidade de “Nova Roma que é Constantinopla” à Santíssima Trindade e à Mãe de Deus.


*Steven Runciman – A Civilização Bizantina (segunda edição). Biblioteca de cultura histórica, Zahar Edirores (1977) Tradução de Waltersir Dutra, Rio de janeiro.
Título original: BYZANTINE CIVILIZATION publicado na Inglaterra por: Edward Arnord (Publishers) Ltd.
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